O que os esteroides anabolizantes fazem no corpo

Resumo: o uso de esteroides androgênicos anabolizantes (EAA) fora de indicação médica atinge vários sistemas ao mesmo tempo. Powerlifters de elite fortemente suspeitos de uso morreram 4,6 vezes mais que a população geral em 12 anos de seguimento, e uma revisão clínica registra mortalidade de 12,9% contra 3,1% no mesmo período de acompanhamento. Parte das alterações reverte com a suspensão, parte reverte pela metade e parte não reverte. Este texto mapeia o que acontece em cada sistema e o que a literatura mostra sobre reversibilidade.

Este é um texto educativo sobre complicações clínicas. Ele não ensina dose, esquema, combinação nem forma de uso, e não apresenta uso estético de EAA como conduta possível. A Resolução CFM 2.333/2023 veda a prescrição de esteroide e de hormônio com finalidade estética, de ganho de massa ou de desempenho em pessoa saudável, e eu concordo com a vedação. O que segue existe porque quem já usa, quem já usou e quem convive com quem usa precisa saber o que procurar.

Quem usa, e em que magnitude

A revisão sistemática dos 14 estudos brasileiros disponíveis encontrou prevalência de uso entre 2,1% e 31,6% [1]. A faixa é larga porque cada estudo contou uma população diferente, e o valor mais alto sai sempre da academia.

A exposição real está documentada. Nos 100 homens da coorte HAARLEM, o ciclo teve mediana de 13 semanas, com uso simultâneo de 5 substâncias diferentes e dose média de 901 mg de equivalentes por semana [2]. A título de comparação, a reposição terapêutica em hipogonadismo trabalha em ordem de grandeza muito menor. Boa parte da confusão pública sobre o tema nasce daí: quem lê um estudo de segurança de reposição e conclui algo sobre uso estético está comparando duas exposições diferentes.

Coração: o sistema que mais cobra

O que acontece. Revisão de 11 trabalhos descreve quatro mecanismos pelos quais o coração do usuário crônico pode hipertrofiar, falhar e chegar à morte súbita [3]. Nas mortes súbitas ligadas a EAA, a autópsia mostra coração pesado, hipertrofia e fibrose miocárdica capazes de gerar arritmia fatal mesmo com coronárias limpas [4].

Esse último detalhe é o que muda a conduta. Um cateterismo normal não afasta cardiotoxicidade por EAA, porque o problema está no músculo e não no cano.

O que enxerga cedo. Fração de ejeção normal engana nessa população. Strain de repouso e de esforço, trabalho miocárdico e angiotomografia pegam a doença enquanto ela ainda é silenciosa [5]. Isso está desenvolvido em o coração de quem usa esteroide e em strain longitudinal global.

Reverte? Em parte. A suspensão interrompe a progressão e devolve parte da estrutura. A função sistólica precisa de anos de seguimento e, em quem acumulou uma década de uso, pode não voltar.

Sangue: eritrocitose e viscosidade

O aumento do hematócrito é um dos efeitos mais consistentes da exposição androgênica. O mecanismo passa por supressão de hepcidina, elevação de eritropoietina e deslocamento do ponto de equilíbrio da hemoglobina.

O detalhe que quase todo mundo lê errado: a relação entre hematócrito e viscosidade sanguínea sobe em curva, e não em reta. Sair de 52% para 55% são três pontos no laudo e podem triplicar a viscosidade. É a diferença entre um número que parece pouco pior e um território de risco trombótico diferente.

Em dose alta, o hemograma merece cadência própria, separada do restante do laboratório, porque é o exame que flagra a policitemia antes do limiar trombótico.

Fígado: quem paga e quem não paga

Nem todo EAA é hepatotóxico da mesma forma. A alteração química que torna um esteroide ativo por via oral, a 17-alfa-alquilação, é justamente a que carrega a toxicidade hepática [6]. Injetáveis não alquilados têm perfil diferente.

Existe ainda a armadilha da transaminase. ALT e AST também vêm do músculo, e quem treina pesado sobe essas enzimas sem ter nada no fígado. Interpretar transaminase alta como lesão hepática nessa população, sem checar as enzimas que separam origem hepática de origem muscular, gera diagnóstico falso em série. O tema está em fígado e esteroides e em transaminase alta em quem treina.

Eixo hormonal: a supressão e o que vem depois

Uma ou duas doses de testosterona exógena já derrubam LH e FSH. A supressão é rápida, previsível e dose-dependente.

A saída é que é lenta e variável. Entre ex-usuários de longa data, o hipogonadismo de retirada é comum, arrasta por mais de um ano e vem acompanhado de depressão maior em quase um terço [7]. E existe achado de que a célula de Leydig continua com função reduzida anos depois de parar.

Um dado que costuma surpreender: no HAARLEM, 80 dos 100 participantes fizeram alguma terapia de recuperação após o ciclo, e ela não se associou a testosterona total, testosterona livre nem contagem de espermatozoides aos 3 meses e a 1 ano. A única associação significativa encontrada foi volume seminal menor [8]. Isso está desenvolvido em depois do ciclo.

Fertilidade

A testosterona exógena suprime a espermatogênese porque desliga o LH e esvazia a testosterona dentro do testículo, que é quem sustenta a produção de espermatozoides.

No HAARLEM, volume seminal e contagem seguiam abaixo do basal 12 meses após o ciclo [9]. A recuperação existe na maioria e não é garantida, e o prazo depende de tempo de exposição, dose e função prévia.

Aqui entra um ponto que muda a urgência do caso e que raramente é lembrado: quem decide se a infertilidade pós-EAA pode esperar é a idade e a história reprodutiva da parceira, e não o homem que parou o ciclo [10].

Lipídios: o dano que não dá sintoma

A queda do HDL acompanha a dose. Com nandrolona a 200 mg por semana, o HDL caiu em todos os pacientes de um ensaio, de 39 para 26 mg/dL, e a apolipoproteína A-1 caiu de 154 para 112 mg/dL [11]. No estudo clássico de dose-resposta de Bhasin, o HDL caiu proporcionalmente quanto maior a dose de testosterona [12].

Nenhuma dessas alterações produz sintoma. Elas aparecem apenas no exame, e por isso são as mais fáceis de ignorar. O texto específico é colesterol e esteroides.

Rim e pressão

Comparados a homens em testosterona prescrita, usuários sem prescrição tiveram quase o dobro de hipertensão (razão de prevalência ajustada 1,86; IC95% 1,19 a 2,91) e mais alterações hepáticas (1,51; IC95% 1,04 a 2,20) [13]. O rim entra por duas portas: a pressão e a lesão direta descrita em uso prolongado. E existe o problema de leitura, porque creatinina alta em quem tem muita massa muscular tem explicação alternativa, discutida em rim e esteroides.

Mente: dependência, humor e abstinência

Cerca de 30% dos usuários preenchem critério de dependência, com síndrome de abstinência própria [14]. O mecanismo é incomum e tem ligação biológica documentada com o sistema opioide [15], o que explica por que parar é mais difícil do que a lógica de “é só não comprar mais” sugere.

Os efeitos psiquiátricos, como agressividade e alteração de humor, são idiossincráticos e não regra [16]. A dependência se sustenta por três vias, imagem corporal, hipogonadismo de retirada e recompensa do tipo opioide, e o tratamento precisa endereçar a via que domina em cada pessoa.

Vale registrar um dado sobre acesso ao cuidado, porque ele diz muito. Um piloto norueguês que oferecia terapia hormonal gratuita para quem queria parar recrutou apenas 12 de 81 interessados, porque a exigência de rótulo de dependência e o medo de exposição legal afastaram justamente o público-alvo [17]. Julgar afasta, e quem se afasta não é acompanhado.

Mulheres

A clínica de EAA foi desenhada para o homem, e a mulher que usa costuma chegar tarde, já com virilização instalada [18]. Em série qualitativa com 16 usuárias, os efeitos masculinizantes irreversíveis, voz grave e clitóris aumentado, foram os mais difíceis de processar, num cenário em que quem decidia substância era quase sempre um homem de confiança [19].

O tema tem texto próprio em mulher e esteroide androgênico.

O problema do produto

Duas camadas de incerteza se somam ao risco farmacológico.

Adulteração e substituição. Entre substituições documentadas em análise forense, a mais repetida foi oxandrolona rotulada que na análise era estanozolol, o que troca um oral de menor sobrecarga hepática por outro com fenótipo colestático descrito [20]. O usuário acredita estar exposto a uma coisa e está exposto a outra.

Contaminação de suplemento. A ostarina foi o agente mais prevalente entre anabólicos encontrados em suplementos manipulados brasileiros, muitas vezes em concentração muito baixa [21]. Isso importa para quem faz exame antidoping e para quem tenta entender um resultado inesperado.

Existe um sinal clínico útil aqui: uma ou duas doses de testosterona exógena já derrubam LH e FSH. Quando alguém relata uso e o eixo aparece preservado, a primeira hipótese passa a ser produto falsificado.

O que reverte e o que não reverte

AlteraçãoReversibilidade
Eritrocitosereverte com a suspensão
Perfil lipídicoreverte, em geral em semanas a meses
Eixo hormonalreverte na maioria, em prazo variável, e pode arrastar mais de um ano
Espermatogênesereverte na maioria, com contagem ainda abaixo do basal em 12 meses em parte dos casos
Ginecomastia estabelecidatecido fibroso instalado não regride com medicação
Estrutura cardíacareverte em parte
Função sistólicapode não voltar em uso longo
Virilização de voz e alopecia na mulherpode não voltar

Um caso, de-identificado

A situação. Homem adulto, fisiculturista competitivo, primeira avaliação médica da vida depois de cerca de quinze anos de uso. Chegou em uso simultâneo de várias substâncias, incluindo estimulante adrenérgico e diurético, e nunca havia feito qualquer exame cardiovascular.

O raciocínio. A tentação era retirar tudo de uma vez. Isso teria entregado um homem sem androgênio nenhum e sem eixo próprio, com abstinência somada à ausência total de suporte hormonal. A ordem que fazia sentido começava por reduzir a polifarmácia e estabelecer avaliação cardiovascular objetiva antes de qualquer desmame, porque sem imagem não havia como saber o que já estava instalado.

O que eu aprendi. No usuário de longa data que nunca foi avaliado, a primeira conduta é avaliar e simplificar, e não retirar. A retirada abrupta em quem tem quinze anos de supressão produz um quadro clínico próprio, e ele pode ser pior do que a exposição controlada durante o tempo necessário para organizar a saída.

O porém

Três limites honestos.

Boa parte do que se sabe vem de coortes de usuários que procuraram serviço de saúde, de autópsias e de séries. Esse desenho seleciona os piores casos, e por isso pode exagerar o risco médio.

Os dados de mortalidade citados são antigos e vêm de populações específicas, com uso e substâncias que podem não corresponder ao padrão atual. Eles indicam magnitude e não fecham causalidade.

E o mais importante: nada disso substitui avaliação individual. Cada pessoa chega com um tempo de exposição, uma bagagem genética e um conjunto de comorbidades diferentes, e a leitura de risco só faz sentido dentro do caso.

Perguntas frequentes

Anabolizante faz mal ao coração?

O uso crônico se associa a hipertrofia, fibrose miocárdica e morte súbita, e as autópsias mostram arritmia fatal mesmo com coronárias limpas. Fração de ejeção normal não afasta o problema, e os exames que enxergam cedo são o strain e o trabalho miocárdico.

Os efeitos dos esteroides anabolizantes são reversíveis?

Depende da alteração. Eritrocitose e perfil lipídico revertem. Eixo hormonal e fertilidade revertem na maioria, em prazo variável. Ginecomastia estabelecida, virilização de voz na mulher e parte da função cardíaca em uso longo podem não reverter.

Quanto tempo depois de parar o eixo hormonal volta ao normal?

É variável. Entre ex-usuários de longa data, o hipogonadismo de retirada arrasta por mais de um ano em parte dos casos, e no estudo HAARLEM o volume seminal e a contagem ainda estavam abaixo do basal 12 meses após o ciclo.

Esteroide anabolizante causa dependência?

Cerca de 30% dos usuários preenchem critério de dependência, com síndrome de abstinência própria e ligação biológica documentada com o sistema opioide. Ela se sustenta por imagem corporal, hipogonadismo de retirada e recompensa.

Quais exames quem já usou esteroide deve fazer?

A avaliação é individual e depende do tempo de exposição e das queixas. De forma geral, ela envolve perfil hormonal completo com LH e FSH, hemograma, função hepática com marcadores que separam origem hepática de muscular, função renal, perfil lipídico e avaliação cardiovascular com imagem que enxergue disfunção precoce.

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Referências

  1. Abrahin OSC, Sousa EC, Santos AM. Prevalence of the use of anabolic-androgenic steroids in Brazil: a systematic review. Subst Use Misuse. 2014;49(9):1156-1162. DOI: 10.3109/10826084.2014.903750
  2. Smit DL, de Hon O, Venhuis BJ, den Heijer M, de Ronde W. Baseline characteristics of the HAARLEM study. Scand J Med Sci Sports. 2020;30(3):531-539. DOI: 10.1111/sms.13592
  3. Momoh R. Cardiac effects of long-term anabolic-androgenic steroid use. Am J Mens Health. 2024. DOI: 10.1177/15579883241249647
  4. Di Fazio N, Volonnino G, Treglia M, et al. Forensic approach in cases of anabolic-androgenic steroid abuse and cardiovascular mortality. Front Cardiovasc Med. 2025;12:1585205. DOI: 10.3389/fcvm.2025.1585205
  5. Roston F, Ribeiro AAA, Makiniks NC, Ribeiro LFB, Ziegler LL. Arq Bras Cardiol Imagem Cardiovasc. 2026;39(2):e20260076. DOI: 10.36660/abcimg.20260076
  6. Sinha A, Deb VK, Datta A, et al. Steroids. 2024;212:109518. DOI: 10.1016/j.steroids.2024.109518
  7. Kanayama G, Hudson JI, DeLuca J, et al. Prolonged Hypogonadism in Males Following Withdrawal from Anabolic-Androgenic Steroids. Addiction. 2015;110(5):823-831. DOI: 10.1111/add.12850
  8. Smit DL, Buijs MM, de Hon O, den Heijer M, de Ronde W. Disruption and recovery of testicular function during and after androgen abuse: the HAARLEM study. Hum Reprod. 2021;36(4):880-890. DOI: 10.1093/humrep/deaa366
  9. Azevedo RA, Gualano B, Teixeira TA, Nascimento BCG, Hallak J. Abusive Use of Anabolic Androgenic Steroids, Male Sexual Dysfunction and Infertility. Front Toxicol. 2024;6:1379272. DOI: 10.3389/ftox.2024.1379272
  10. Anawalt BD. Diagnosis and Management of Anabolic Androgenic Steroid Use. J Clin Endocrinol Metab. 2019;104(7):2490-2500. DOI: 10.1210/jc.2018-01882
  11. Gascón A, Belvis JJ, Berisa F, et al. Nandrolone decanoate for the treatment of anemia in elderly male patients on hemodialysis. Geriatr Nephrol Urol. 1999;9:67-72.
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  20. ROIDCheck Wave 3 Report. Piatkowski T, Hi-Ground, CheQpoint. Austrália, 2024.
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  23. Talih F, Fattal O, Malone DA. Anabolic steroid abuse: psychiatric and physical costs. Cleve Clin J Med. 2007;74(5):341-352.

Marcos Cesar Staak Júnior, médico, CRM-SC 17642.
Conteúdo educativo, de caráter informativo. Não substitui consulta médica, avaliação individual nem prescrição. Este texto não indica, recomenda nem ensina uso de esteroides androgênicos anabolizantes, e não traz dose, esquema ou forma de uso. A Resolução CFM 2.333/2023 veda a prescrição desses agentes com finalidade estética, de ganho de massa ou de desempenho. Caso clínico de-identificado. Revisado em 20/08/2026.

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