Resumo: a bigorexia, ou dismorfia muscular, é tratada pelo DSM-5 como especificador do transtorno dismórfico corporal, com a preocupação voltada para o corpo percebido como pequeno ou pouco musculoso. Revisão recente propõe que ela seja lida também como agrupamento de exposições cardiovasculares em adolescentes e jovens, porque costuma vir acompanhada de esteroides androgênicos, excesso de energéticos e dieta hiperproteica, com aterosclerose precoce, hipertrofia ventricular patológica, disfunção endotelial e maior risco de arritmia.
Este quadro costuma ser tratado só como questão de autoestima. O argumento aqui é que o coração entra na conta desde cedo.
O que é, com o critério correto
O DSM-5 classifica a dismorfia muscular como especificador dentro do transtorno dismórfico corporal, e não como diagnóstico à parte [1]. A preocupação central é com o corpo percebido como pequeno ou insuficientemente musculoso, com predominância masculina.
A precisão importa porque o termo circula de forma solta. Estar insatisfeito com o corpo não é dismorfia. O quadro clínico exige preocupação persistente, com sofrimento significativo e prejuízo funcional, sobre um defeito percebido que os outros não enxergam da mesma forma.
O que a revisão propõe de novo
A revisão de 2026 no Clinical Journal of Sport Medicine argumenta que a bigorexia é mais que um transtorno de imagem: ela funciona como marcador de um agrupamento de exposições de risco cardiovascular em adolescentes e jovens [2].
Três exposições costumam vir juntas nesse perfil:
- esteroides androgênicos anabolizantes
- excesso de bebidas energéticas
- dieta hiperproteica, frequentemente com suplementação intensa
O quadro que os autores descrevem inclui aterosclerose precoce, hipertrofia ventricular esquerda patológica, disfunção endotelial e maior risco de arritmia. Eles sugerem interação sinérgica entre as exposições, acelerando o envelhecimento vascular além do que cada fator faria sozinho, e defendem rastreio cardiovascular nesse grupo.
Os limites, e eles são grandes. É revisão narrativa, sem coorte própria. A sinergia entre as exposições é hipótese, e não medida. O que a revisão faz bem é nomear um perfil clínico que a prática reconhece e que a literatura tratava em silos separados.
Por que a soma preocupa mais que as partes
Cada exposição tem mecanismo próprio, e eles convergem no mesmo território.
O esteroide derruba o HDL de forma dose-dependente, eleva o hematócrito, aumenta a viscosidade e produz hipertrofia com fibrose. A carga acumulada de exposição se associou a cálcio e placa coronária e a pior strain ventricular, com limiar visível a partir de cerca de 5 anos de uso [3].
O excesso de energéticos soma estímulo adrenérgico, alteração de ritmo e pressão elevada.
A dieta hiperproteica em excesso, principalmente com suplementação intensa e hidratação insuficiente, entra pela via renal e pela leitura falsa de creatinina.
Nenhuma dessas isolada explicaria um evento cardiovascular em alguém de vinte anos. Somadas, e por anos, elas desenham outro cenário.
O ponto que muda a conduta
A armadilha é encaixotar a bigorexia como transtorno psicológico e deixar o coração fora da avaliação.
Quem chega com esse perfil precisa de duas frentes ao mesmo tempo: cuidado de saúde mental, com diagnóstico correto e tratamento adequado ao transtorno dismórfico corporal, e avaliação cardiovascular que enxergue dano precoce.
E enxergar dano precoce, nessa população, exige exame adequado. Fração de ejeção normal engana em quem tem exposição androgênica, e o que detecta cedo é strain longitudinal global com mapa polar, trabalho miocárdico e imagem sob esforço. O tema está em o coração de quem usa esteroide.
O adolescente: onde não existe meio-termo
Existe uma fronteira que precisa ser dita com clareza.
No adolescente em crescimento, não existe dose segura de esteroide androgênico. Discutir dose já concede o que não pode ser concedido, e a conduta é cessação, com abordagem da motivação por trás.
Essa motivação, no adolescente, costuma ser dismorfia, e não desempenho. Endereçar o desempenho em quem está movido por dismorfia trata o sintoma errado, e o uso volta.
Este é um dos quatro cenários em que a redução de danos gradual não se aplica, e o motivo é o mesmo em todos: o dano do intervalo é grande demais para ser negociado. Os outros três estão em redução de danos em esteroides.
Uma ressalva que eu faço questão de registrar
Existe uma crítica séria a patologizar todo usuário de esteroide como portador de dismorfia, e ela tem razão.
Enquadrar em bloco converte uma questão social em problema individual, apaga a determinação que produz o consumo e normaliza a ideia de que a falta de acesso a exame, a informação sem viés e a seguimento decente é responsabilidade do próprio paciente [4].
Dismorfia muscular é diagnóstico com critério, descreve parte dos usuários e responde a tratamento. Aplicá-la a todos produz um rótulo que afasta e um diagnóstico que não se sustenta.
Um caso, de-identificado
A situação. Homem jovem adulto, treino intenso diário, uso de esteroide androgênico iniciado sem orientação médica, consumo alto de bebidas energéticas e dieta com suplementação intensa. Chegou por queixa de palpitação, e o relato deixava claro que ele nunca se considerava suficientemente grande, independentemente do que a balança e o espelho mostrassem.
O raciocínio. A queixa cardíaca era o que abria a porta, e o quadro completo pedia duas frentes paralelas. A avaliação cardiovascular precisava enxergar dano precoce, e a conversa sobre a insatisfação persistente com o corpo precisava acontecer sem ser tratada como assunto secundário que se resolve depois do exame.
O que eu aprendi. Quando a insatisfação com o corpo é permanente e independente do resultado obtido, tratar apenas a exposição resolve metade do problema, e a metade que sobra traz a pessoa de volta. A pergunta que passou a fazer parte da avaliação é simples: existe algum resultado que faria você se considerar satisfeito. A resposta a essa pergunta orienta o encaminhamento.
O porém
Três ressalvas.
A revisão que propõe o fenótipo cardiovascular é narrativa, sem coorte própria, e a sinergia entre as exposições é hipótese. Ela organiza bem o raciocínio clínico e não estabelece magnitude de risco.
O rótulo tem custo. Nomear alguém como portador de dismorfia sem critério diagnóstico preenchido estigmatiza e afasta, e a decisão de aplicar o diagnóstico é clínica e cuidadosa.
E rastreio cardiovascular em jovem assintomático tem contrapartida: exame demais gera achado incidental, ansiedade e cascata de investigação. A indicação continua sendo individual e depende do conjunto de exposições, e não da idade sozinha.
Perguntas frequentes
O que é bigorexia?
É a preocupação persistente com o corpo percebido como pequeno ou pouco musculoso, com sofrimento e prejuízo funcional. O DSM-5 a trata como especificador do transtorno dismórfico corporal, com predominância masculina.
Bigorexia é a mesma coisa que gostar de treinar?
Não. O quadro clínico exige preocupação persistente com sofrimento significativo e prejuízo funcional, sobre um defeito percebido que os outros não enxergam da mesma forma. Dedicação a treino não configura transtorno.
Bigorexia afeta o coração?
Revisão recente propõe que ela funcione como marcador de um conjunto de exposições cardiovasculares em jovens, incluindo esteroides, excesso de energéticos e dieta hiperproteica, com aterosclerose precoce e hipertrofia patológica descritas. A interação entre as exposições é hipótese, e não medida.
Adolescente que usa anabolizante pode ser acompanhado com redução de danos?
Não nessa faixa. No adolescente em crescimento não existe dose segura, e a conduta é cessação com abordagem da motivação por trás, que costuma ser dismorfia e não desempenho.
Como saber se preciso de ajuda?
Um sinal útil é a pergunta sobre satisfação: quando nenhum resultado obtido produz satisfação duradoura, e a insatisfação persiste independentemente do que o espelho ou a balança mostram, vale procurar avaliação de saúde mental junto com a avaliação clínica.
Leitura relacionada
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Referências
- Rück C, Mataix-Cols D, Feusner JD, Shavitt RG, et al. Body dysmorphic disorder. Nat Rev Dis Primers. 2024;10:92. DOI: 10.1038/s41572-024-00577-z
- AbdelMassih AF, Hosheh A, Arun D, et al. At the Other End of the Spectrum: Bigorexia as an Emerging Cardiovascular Phenotype in Adolescents. Clin J Sport Med. 2026. DOI: 10.1097/JSM.0000000000001500
- Buhl LF, Christensen LL, Hjortebjerg R, et al. Illicit Anabolic Steroid Use and Cardiovascular Status in Men and Women. JAMA Netw Open. 2025. DOI: 10.1001/jamanetworkopen.2025.26636
- Arruda MSB, Costa RM, Keppler ILS, Pasquim HM. Anabolic androgenic steroids are human enhancement drugs, not necessarily substance abuse. Einstein (São Paulo). 2026;24(Spec 1):eRW1998. DOI: 10.31744/einstein_journal/2026RW1998
- Zaiser C, Laskowski NM, Müller R, et al. The relationship between anabolic androgenic steroid use and body image, eating behavior, and physical activity by gender: A systematic review. Neurosci Biobehav Rev. 2024. DOI: 10.1016/j.neubiorev.2024.105772