O risco é aspiração por esvaziamento gástrico lento. Cinco sociedades convergem em estratificar em vez de suspender para todos. Por que o prazo aceito hoje é de 21 dias na formulação semanal.

GLP-1 antes de cirurgia e endoscopia: os 21 dias

Resumo: o risco perioperatório desses fármacos é a aspiração de conteúdo gástrico, porque eles retardam o esvaziamento do estômago e o jejum habitual pode não bastar. O guia conjunto de cinco sociedades recomenda estratificar risco e decidir em conjunto, em vez de suspender o fármaco de todo mundo. Na prática, o prazo aceito hoje para a formulação semanal é de 21 dias de antecedência, com a formulação diária suspensa no dia do procedimento, sempre individualizado por sintoma digestivo, fase de escalonamento e comorbidade.

Este é um dos poucos temas em que a conduta mudou de forma relevante em pouco tempo, e a versão antiga ainda circula.

Qual é exatamente o risco

Os agonistas de GLP-1 retardam o esvaziamento gástrico. Isso é parte do mecanismo terapêutico, e é também o que cria o problema.

Sob anestesia geral ou sedação profunda, os reflexos de proteção da via aérea ficam abolidos. Se o estômago ainda tem conteúdo apesar do jejum, esse conteúdo pode ser aspirado para os pulmões. A pneumonite química que segue é grave.

Revisão sistemática dos sinais respiratórios dessa classe conclui que, entre todos os sinais pulmonares levantados, o único acionável é o risco de aspiração perioperatória [1]. Os demais não se sustentaram.

O que as sociedades recomendam

O guia conjunto de cinco sociedades sobre uso perioperatório desses fármacos é claro em um ponto que costuma ser distorcido: a recomendação não é suspender para todos [2].

A orientação é estratificar o risco de esvaziamento gástrico lento e tomar a decisão em conjunto entre quem prescreve, quem opera e quem anestesia, sem punir o paciente apenas por usar o fármaco para obesidade.

Os elementos que entram na estratificação:

Aumenta o riscoReduz o risco
Sintoma digestivo ativo (náusea, plenitude, vômito)ausência de sintoma digestivo
Fase de escalonamento recente ou aumento de dosedose estável há meses
Dose altadose baixa
Formulação semanalformulação diária
Gastroparesia, neuropatia diabética, comorbidade digestivaausência dessas condições
Procedimento com sedação profunda ou anestesia geralanestesia local ou regional

O prazo, e por que ele mudou

Minha conduta atual, e ela é minha: no perioperatório eu suspendo a formulação diária no dia do procedimento e a semanal com 21 dias de antecedência, individualizando por sintoma digestivo, fase de escalonamento e comorbidade.

Vale registrar que este número foi corrigido. Eu já trabalhei com prazo bem menor, e a orientação de 7 dias que circulou está desatualizada. Registro a mudança porque ela é o tipo de coisa que fica em material antigo e continua sendo repetida.

O raciocínio por trás do prazo é farmacocinético. A semivida das formulações semanais é longa, e o efeito sobre o esvaziamento gástrico não desaparece em poucos dias.

O que fazer quando não dá para suspender

Nem sempre é possível esperar 21 dias, e cirurgia de urgência não espera nada. As alternativas que o guia discute:

Dieta líquida nas 24 horas anteriores. Reduz o volume de conteúdo sólido residual.

Jejum prolongado. Estendido além do padrão, quando o procedimento permite.

Ultrassonografia gástrica à beira do leito. Avalia conteúdo residual antes da indução, e vem sendo cada vez mais usada exatamente nessa situação.

Ajuste da técnica anestésica. Indução em sequência rápida e proteção da via aérea, decisão que é do anestesista.

A decisão sobre qual caminho seguir é do time que conduz o procedimento, e o papel de quem prescreve o fármaco é informar com clareza qual é a formulação, qual a dose, há quanto tempo, e se existe sintoma digestivo em curso.

O erro do outro lado

Existe um viés que o próprio guia nomeia: suspender o fármaco de forma automática só porque o paciente usa para obesidade, e não para diabetes.

Isso é estigma travestido de segurança. O risco de esvaziamento gástrico lento não muda conforme a indicação. O que muda é a dose, o tempo de uso, a fase de escalonamento e o sintoma.

E existe custo em suspender sem necessidade. Interrupções repetidas por procedimentos eletivos atrapalham a titulação, alimentam reganho e aumentam abandono do tratamento, tema de parar o GLP-1.

Um caso, de-identificado

A situação. Paciente em uso de fármaco incretínico semanal, dose estável havia meses, sem qualquer sintoma digestivo, com procedimento eletivo agendado com pouca antecedência. A orientação recebida tinha sido cancelar o procedimento.

O raciocínio. O caso reunia os elementos de menor risco da estratificação: dose estável, sem escalonamento recente, sem sintoma. A conduta foi comunicar isso de forma objetiva à equipe cirúrgica e anestésica, com a informação completa da formulação e do tempo de uso, e deixar a decisão sobre técnica e preparo com quem conduz o procedimento.

O que eu aprendi. O papel de quem prescreve nesse momento é entregar informação completa, e não decidir sobre anestesia. Uma nota escrita com formulação, dose, tempo de uso e presença ou ausência de sintoma digestivo resolve mais do que qualquer conversa de corredor, e ela deixa registro.

O porém

Duas ressalvas.

O prazo de 21 dias é o mais aceito no momento em que este texto foi escrito, e ele é uma convenção derivada de farmacocinética e de consenso, não de ensaio randomizado com desfecho de aspiração. Prazos assim mudam, e esta seção existe para lembrar disso.

E o campo é de mudança rápida. A ultrassonografia gástrica pré-anestésica pode substituir prazos fixos conforme a disponibilidade aumentar, o que tornaria a pergunta “quantos dias” menos importante que a pergunta “o estômago está vazio agora”.

Perguntas frequentes

Quantos dias antes da cirurgia devo parar o GLP-1?
O prazo mais aceito atualmente é 21 dias para as formulações semanais e o dia do procedimento para as diárias, individualizado conforme sintoma digestivo, fase de escalonamento, dose e tipo de anestesia. A decisão final é conjunta com a equipe que conduz o procedimento.

Por que o GLP-1 é um problema na anestesia?
Porque ele retarda o esvaziamento gástrico. Sob anestesia, os reflexos de proteção da via aérea ficam abolidos, e conteúdo gástrico residual pode ser aspirado para os pulmões.

Preciso parar o GLP-1 para fazer endoscopia?
O mesmo raciocínio se aplica a qualquer procedimento com sedação. A estratificação considera dose, tempo de uso, sintoma digestivo e o tipo de sedação planejada.

E se a cirurgia for de urgência?
Não há tempo para suspensão. As alternativas discutidas incluem avaliação de conteúdo gástrico por ultrassonografia à beira do leito e ajuste da técnica anestésica, decisões que pertencem à equipe que conduz o caso.

Preciso avisar o anestesista que uso GLP-1?
Sim, sempre, informando qual formulação, qual dose, há quanto tempo, quando foi a última aplicação e se existe algum sintoma digestivo.

Leitura relacionada

Referências

  1. Ahuja A, Prasad S, Manoharan S, et al. Pulmonary adverse events associated with GLP-1 receptor agonists: a systematic review of respiratory safety signals. Cardiovasc Diabetol Endocrinol Rep. 2026. DOI: 10.1186/s40842-026-00311-6
  2. Kindel TL, Wang AY, Wadhwa A, et al. Multisociety clinical practice guidance for the safe use of glucagon-like peptide-1 receptor agonists in the perioperative period. Surg Obes Relat Dis. 2024. DOI: 10.1016/j.soard.2024.08.033
  3. Almansour HA, Thaibah HA, Alfarhan M, et al. Real-World Safety Concerns of Tirzepatide: A Retrospective Analysis of FAERS Data (2022-2025). Healthcare (Basel). 2025;13:2259. DOI: 10.3390/healthcare13182259

Compartilhe este post:

Facebook
WhatsApp
Telegram