O coração de quem usa esteroide: o que o eco enxerga antes

Resumo: a cardiotoxicidade dos esteroides androgênicos anabolizantes se instala em silêncio. Meta-análise de 35 estudos e cerca de 2.000 homens mostrou fração de ejeção 2,25 pontos percentuais menor e strain longitudinal global pior em usuários, comparados com atletas de força que não usam. Nas mortes súbitas, a autópsia mostra coração pesado com fibrose miocárdica e coronárias limpas. Um ecocardiograma com fração de ejeção normal, sem strain, é insuficiente nessa população.

Existe um intervalo longo entre o coração começar a adoecer e o exame convencional dizer isso. O trabalho clínico está em encurtar esse intervalo.

Os quatro caminhos, não um só

A cardiotoxicidade dos esteroides não segue uma via única. Revisão de 11 trabalhos descreve os mecanismos pelos quais o coração do usuário crônico pode hipertrofiar, falhar e chegar à morte súbita, e a reversão ao parar acontece em alguns casos e não em outros [1].

Os caminhos que a literatura descreve:

Efeito direto no miócito. Hipertrofia com fibrose intersticial, apoptose e remodelamento adverso. É o achado dominante nas autópsias.

Aterosclerose acelerada. Pela queda do HDL e pela alteração do efluxo de colesterol. Trabalho com usuários mostrou efluxo de HDL reduzido, com 25% apresentando placa em duas ou mais coronárias [2], e a carga acumulada de exposição se associou à aterosclerose em outro estudo [3].

Trombose e vasoespasmo. Somando eritrocitose, aumento de viscosidade e alteração da função plaquetária e endotelial.

Arritmia. Sobre substrato de fibrose, o que explica morte súbita com coronárias normais.

Cada mecanismo pede um exame diferente para ser visto, e é por isso que um único exame não cobre o rastreio.

Por que a fração de ejeção engana

A fração de ejeção é insensível para dano precoce, e existem três razões somadas para isso [4]:

  1. As fibras longitudinais dominam o subendocárdio, que é a camada mais vulnerável a isquemia e a estresse. Elas adoecem primeiro.
  2. A geometria elíptica do ventrículo faz a contração circunferencial pesar mais na fração de ejeção do que a longitudinal, o que mascara a perda longitudinal.
  3. A hipertrofia pseudonormaliza o número. Uma parede mais espessa ejeta uma fração parecida com menos encurtamento real.

Resultado: o strain longitudinal global cai antes da fração de ejeção.

Os dados no usuário de esteroide são consistentes com isso:

AchadoEstudo
Fração de ejeção 2,25 pontos menor e strain pior que atletas de força não usuáriosmeta-análise de 35 estudos, cerca de 2.000 homens [5]
Strain longitudinal global reduzido mesmo fora de ciclofisiculturistas com anos de uso [6]
Strain de -16,8% contra -18,5% (p = 0,001), com fração de ejeção normalcomparação com controles [6]
Queda de função sistólica e diastólica com ecocardiograma padrão normalfisiculturistas com pelo menos 5 anos de uso [7]
Strain do ventrículo direito já reduzido com TAPSE e fração de área normaisusuários de longa data [8]

O ventrículo direito merece destaque porque quase ninguém olha para ele. O strain do VD cai enquanto as medidas convencionais ainda saem normais.

O que a autópsia mostra

Nas mortes súbitas ligadas a esteroides, o padrão anatomopatológico se repete: coração pesado, hipertrofia e fibrose miocárdica capazes de gerar arritmia fatal mesmo com coronárias limpas [9].

E em jovens usuários sem fator de risco clássico, o infarto pode chegar por cinco caminhos diferentes, de forma que coronária limpa no cateterismo não afasta o diagnóstico [10].

Os dois achados apontam para a mesma conclusão prática: exame que investiga apenas obstrução coronária responde uma pergunta parcial nessa população.

Como pedir o exame para ele valer

Um pedido de ecocardiograma sem especificação devolve fração de ejeção e medidas convencionais, e isso deixa passar a cardiotoxicidade. O pedido precisa trazer, de forma explícita:

Strain longitudinal global com mapa polar. O mapa segmentar é obrigatório, porque um GLS global de 19%, que parece normal, pode esconder segmentos abaixo de 16%, e esse padrão segmentar já é alteração inicial nessa população.

Trabalho miocárdico. Ele corrige a deformação pela pós-carga, o que importa muito em quem tem pressão alterada.

Fase de esforço, com handgrip. Alteração que não aparece em repouso pode aparecer sob carga.

Pressão arterial registrada junto com o strain. Estresse mental durante o exame eleva a pressão sistólica e derruba o strain, enquanto o índice de trabalho miocárdico sobe [11]. Sem a pressão do momento, o número perde a interpretação.

Marca do aparelho e versão do software no laudo. O Posicionamento do Departamento de Imagem Cardiovascular da Sociedade Brasileira de Cardiologia de 2023 lista o que o laudo de strain precisa conter, e este é o item que quase todo laudo brasileiro esquece [12]. Ele importa porque os valores variam entre fabricantes, e seguimento de strain feito em máquinas diferentes deixa de ser seguimento.

Dois detalhes de agendamento que mudam o resultado

O exame se faz no vale farmacocinético. Agendar o eco logo depois de uma aplicação devolve um coração hiperdinâmico transitório que não corresponde ao estado basal. O exame informa quando é feito o mais distante possível da última dose.

O seguimento se faz no mesmo aparelho. Quando o exame troca de máquina, a variação é do equipamento até prova em contrário, e não do miocárdio. Na minha experiência e na de ecocardiografistas com quem eu trabalho, equipamentos de fabricantes diferentes entregam valores sistematicamente distintos de strain, e comparar entre eles produz conclusão falsa nas duas direções.

Quando escalar para outros exames

Strain e trabalho miocárdico são a linha de base. Escore de cálcio coronário, angiotomografia de coronárias e velocidade de onda de pulso entram por indicação de risco, e não por rotina.

O escore de cálcio, especificamente, funciona como desempate para o paciente de risco intermediário em dúvida sobre conduta, e não como rastreio universal [13].

O que fazer quando o strain vem alterado

Minha conduta, e ela é minha: com disfunção sistólica subclínica documentada, eu prescrevo exercício em zona 2 com dose mínima de cerca de 2 horas por semana e deixo a alta intensidade fora do plano até a imagem ser refeita.

A lógica é que exercício aeróbico contínuo de intensidade moderada tem benefício cardiovascular bem estabelecido, e a alta intensidade sobre miocárdio com disfunção subclínica adiciona um risco que não precisa ser corrido enquanto a situação não estiver esclarecida.

E existe um princípio de leitura que vale mais que qualquer valor isolado: no seguimento, o que decide é o comportamento do par trabalho miocárdico e pressão, do repouso para o esforço, e não um número de repouso lido sozinho.

Um caso, de-identificado

A situação. Homem de meia-idade, cardiotoxicidade por esteroides já documentada, em acompanhamento. Trouxe piora de perfil lipídico e de composição corporal, atribuindo tudo à retirada da testosterona que havia sido feita. O histórico mostrava uso irregular de todos os fármacos prescritos.

O raciocínio. A testosterona daquele paciente estava, naquele momento, no melhor valor de toda a série dele. O hormônio acusado não sustentava a acusação. E com adesão irregular documentada, o esquema em curso ainda não tinha sido de fato testado.

O que eu aprendi. Não troco nem escalono conduta enquanto a adesão não estiver estabelecida, porque mudar um esquema que nunca foi cumprido gera dois desconhecidos em vez de um. E o hormônio que o paciente culpa costuma estar no melhor valor do histórico dele, o que faz da série longitudinal a ferramenta mais útil dessa conversa.

O porém

Três ressalvas.

Boa parte dos estudos de strain nessa população é transversal, com amostras pequenas e autorrelato de exposição. Eles mostram associação e são fracos para estabelecer curso temporal.

Existe uma bifurcação de leitura que eu preciso declarar. Um estudo transversal com 94 usuários mostrou strain ainda reduzido cerca de cinco meses após a retirada. Na minha experiência clínica com pacientes em acompanhamento, a piora logo após a retirada tende a ser transitória e a reverter em dois a três meses. As duas leituras podem coexistir: o transversal descreve uma população heterogênea em um único corte, e o que eu observo é a trajetória de quem está sob conduta. Registro a divergência em vez de escondê-la.

E o mais importante: nada aqui é indicação de exame para pessoa específica. Rastreio cardiovascular se define caso a caso, e a lista deste texto descreve o que costuma ser necessário quando a indicação existe.

Perguntas frequentes

Anabolizante causa problema no coração?

A literatura associa o uso crônico a hipertrofia, fibrose miocárdica, aterosclerose acelerada, trombose e arritmia. Meta-análise de 35 estudos encontrou fração de ejeção menor e strain longitudinal pior em usuários, comparados a atletas de força que não usam.

Ecocardiograma normal significa coração saudável em quem usa esteroide?

Não necessariamente. A fração de ejeção é insensível para dano precoce, e o strain longitudinal global cai antes dela. O exame precisa incluir strain com mapa polar e, quando indicado, trabalho miocárdico e fase de esforço.

O que é strain longitudinal global?

É a medida da deformação das fibras longitudinais do miocárdio durante a contração, obtida por rastreamento de pontos na imagem do ecocardiograma. Ela detecta perda de função antes da fração de ejeção porque avalia a camada subendocárdica, que adoece primeiro.

O coração volta ao normal depois de parar?

Em parte. A suspensão interrompe a progressão e devolve parte da estrutura. A função sistólica precisa de anos de seguimento, e em quem acumulou uma década de uso pode não retornar ao ponto de partida.

Qual o melhor momento para fazer o ecocardiograma em quem usa?

O mais distante possível da última aplicação. Exame feito logo após uma dose mostra um coração hiperdinâmico transitório que não corresponde ao estado basal.

Leitura relacionada

Referências

  1. Momoh R. Cardiac effects of long-term anabolic-androgenic steroid use. Am J Mens Health. 2024. DOI: 10.1177/15579883241249647
  2. Souza LV, et al. HDL efflux capacity and coronary plaque in androgen users. Atherosclerosis. 2019. DOI: 10.1016/j.atherosclerosis.2019.02.006
  3. Baggish AL, et al. Cardiovascular Toxicity of Illicit Anabolic-Androgenic Steroid Use. Circulation. 2017. DOI: 10.1161/CIRCULATIONAHA.116.026945
  4. Smiseth OA, Rider O, Cvijic M, et al. Myocardial Strain Imaging: Theory, Current Practice, and the Future. JACC Cardiovasc Imaging. 2025;18(3):340-381. DOI: 10.1016/j.jcmg.2024.07.011
  5. Cavalcante DN, Romariz L, Neto A, et al. Anabolic-androgenic steroids on cardiac structure and function in resistance-trained athletes: a systematic review and meta-analysis. Int J Cardiol. 2025;133896. DOI: 10.1016/j.ijcard.2025.133896
  6. Hammoud S, van den Bemt BJF, Jaber A, Kurdi M. Chronic anabolic androgenic steroid administration reduces global longitudinal strain among off-cycle bodybuilders. Int J Cardiol. 2023. DOI: 10.1016/j.ijcard.2023.03.057
  7. D’Andrea A, Caso P, Salerno G, et al. Left ventricular early myocardial dysfunction after chronic misuse of anabolic androgenic steroids. Br J Sports Med. 2007;41:149-155. DOI: 10.1136/bjsm.2006.030171
  8. Alizade E, Avci A, Tabakcı MM, et al. Comparison of Right Ventricle Systolic Function between Long-Term Anabolic-Androgenic Steroid User and Nonuser Bodybuilder Athletes. Echocardiography. 2016. DOI: 10.1111/echo.13243
  9. Di Fazio N, Volonnino G, Treglia M, et al. Forensic approach in cases of anabolic-androgenic steroid abuse and cardiovascular mortality. Front Cardiovasc Med. 2025;12:1585205. DOI: 10.3389/fcvm.2025.1585205
  10. Oliveira FRB, Lino DOC, Bezerra Filho GF, et al. Arq Bras Cardiol Imagem Cardiovasc. 2026;39(2):e20260049. DOI: 10.36660/abcimg.20260049
  11. Smiseth OA, et al. JACC Cardiovasc Imaging. 2025;18(3):340-381. DOI: 10.1016/j.jcmg.2024.07.011
  12. Almeida ALC, Melo MDT, Le Bihan DCS, et al. Posicionamento do Departamento de Imagem Cardiovascular da SBC sobre o Uso do Strain Miocárdico. Arq Bras Cardiol. 2023;120(9):e20230646. DOI: 10.36660/abc.20230646
  13. Glynn P, Khan SS, Greenland P. Cardiac CT Calcium Score. JAMA. 2025. DOI: 10.1001/jama.2025.0610
  14. Roston F, Ribeiro AAA, Makiniks NC, Ribeiro LFB, Ziegler LL. Arq Bras Cardiol Imagem Cardiovasc. 2026;39(2):e20260076. DOI: 10.36660/abcimg.20260076

Marcos Cesar Staak Júnior, médico, CRM-SC 17642.
Conteúdo educativo, de caráter informativo. Não substitui consulta médica, avaliação individual nem prescrição. Este texto não indica nem ensina uso de esteroides androgênicos anabolizantes. Caso clínico de-identificado. Revisado em 20/08/2026.

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