STEP 1, SURMOUNT-1, SURPASS-CVOT e dados de mundo real. O que cada molécula entrega em peso e em desfecho cardiovascular duro.

Semaglutida e tirzepatida: os ensaios lado a lado

Resumo: no STEP 1, a semaglutida 2,4 mg tirou 14,9% do peso em 68 semanas contra 2,4% do placebo. No SURMOUNT-1, a tirzepatida entregou 15% a 21% em 72 semanas. Em mais de 20 mil pacientes pareados no mundo real, a tirzepatida superou a semaglutida (14,7% contra 10,8% em 2 anos). E em desfecho cardiovascular duro, no SURPASS-CVOT, a tirzepatida foi não inferior e não superior à dulaglutida, apesar de emagrecer o dobro. Mais perda de peso não se traduziu automaticamente em mais proteção cardiovascular.

Existe uma tentação de resolver esse tema com um ranking de potência. O ranking existe, é real, e responde a pergunta errada.

O que cada ensaio mostrou

EnsaioMoléculaPopulaçãoPerda de pesoComparador
STEP 1 [1]semaglutida 2,4 mgobesidade sem diabetes, 68 semanas14,9%2,4% placebo
STEP UP [2]semaglutida 7,2 mgobesidade sem diabetes, 72 semanas18,7%placebo
SURMOUNT-1 [3]tirzepatidaobesidade sem diabetes, 72 semanas15% a 21%placebo
REDEFINE 1 [4]cagrilintida com semaglutidaobesidade sem diabetes20,4%3,0% placebo
REDEFINE 2 [5]cagrilintida com semaglutidaobesidade com diabetes tipo 2, 68 semanas13,7%3,4% placebo
TRIUMPH-1 [6]retatrutida 12 mgobesidade sem diabetes, 80 semanas28,3%placebo

A retatrutida, agonista de três receptores, atinge faixa antes associada à cirurgia bariátrica. No diabetes tipo 2 inicial ela derrubou 15,3% do peso em 40 semanas [7].

Mundo real e comparação direta

Em mais de 20 mil pacientes pareados, a tirzepatida superou a semaglutida em perda de peso, com 14,7% contra 10,8% em dois anos [8]. O mesmo trabalho expõe algo pouco comentado: disparidade de resposta por raça e por sexo.

Vale registrar a diferença entre o número de ensaio e o número de consultório. Nos bancos de dados de prática real com os antiobesidade pré-incretina, a perda média ficou entre 2% e 4% em 12 a 20 semanas, bem abaixo do que os ensaios prometiam [9]. Aderência, titulação incompleta e abandono explicam parte da diferença, e ela tende a existir também com as moléculas novas.

O dado que muda o raciocínio: SURPASS-CVOT

Este é o ensaio mais importante desta discussão, e o menos citado nas redes.

Em diabéticos tipo 2 com doença aterosclerótica estabelecida, a tirzepatida foi não inferior à dulaglutida no desfecho cardiovascular composto, e não superior, apesar de emagrecer aproximadamente o dobro [10].

A leitura é desconfortável e é fundamental. Perda de peso é desfecho intermediário. Ela se correlaciona com melhora de muitos marcadores, e a tradução em evento cardiovascular evitado não é proporcional nem automática. Escolher a molécula pelo percentual de perda assume uma relação que esse ensaio não confirmou.

Do outro lado, a semaglutida tem o SELECT, com redução de eventos cardiovasculares maiores em pessoas com sobrepeso ou obesidade e doença cardiovascular estabelecida sem diabetes. Quando o objetivo do tratamento é desfecho cardiovascular, a evidência disponível pesa mais que o ranking de peso.

Além do peso: o que cada uma tem de próprio

Fígado. No SURPASS-3 com ressonância, a tirzepatida reduziu a gordura hepática em 30% a 47% em 52 semanas no diabetes tipo 2, contra 11% da insulina degludeca, com dois terços a quatro quintos dos tratados atingindo a queda relativa de 30% que se associa a melhora histológica [11].

Mecanismo. A tirzepatida emagrece cortando ingestão calórica e empurrando o metabolismo para oxidação de gordura, e não por evitar a adaptação metabólica [12]. Em seis semanas ela derruba ingestão, apetite e fissura por comida sem depender de esforço voluntário [13].

Sobre o GIP, uma honestidade da fisiologia. O polipeptídeo insulinotrópico dependente de glicose é a principal incretina e está superexpresso na obesidade, alimentando o estoque de gordura. Tanto o agonismo (tirzepatida) quanto o bloqueio do GIP reduzem peso, e a fisiologia ainda não explica por quê [14]. Quem afirma com segurança por que a tirzepatida funciona melhor está afirmando mais do que se sabe.

Massa magra. Em revisão sistemática das duas únicas ECRs disponíveis, a tirzepatida reduziu gordura preservando massa magra em proporção, com melhora da qualidade do músculo [15]. O tema tem texto próprio em massa magra no GLP-1.

O custo do ganho

Comparação em rede dos fármacos de obesidade mostrou que a maior perda de peso vem acompanhada de mais efeito adverso, e que quase nenhum fármaco melhorou qualidade de vida em um ano [16].

Isso vale como contrapeso permanente. Subir a semaglutida de 2,4 mg para 7,2 mg entregou cerca de 3 pontos percentuais a mais de perda, com mais efeito adverso [2]. Cada degrau de potência tem preço, e o preço aparece na adesão.

Como eu escolho

Minha posição, e ela é minha: escolher o antiobesidade por ranking de eficácia é erro clínico. O fármaco mais potente na tabela não é o mais indicado para aquela pessoa.

A escolha se decide considerando:

A complicação que se quer tratar. Cada complicação tem seu alvo de perda de peso, tabelado pela AACE, e algumas têm evidência de molécula específica. Esteatose e esteato-hepatite, insuficiência cardíaca com fração de ejeção preservada, apneia do sono e doença cardiovascular estabelecida apontam para caminhos diferentes.

O desfecho duro disponível. Ele pesa mais que o percentual de perda.

O perfil de efeito adverso e a tolerância individual. Náusea que impede a titulação anula qualquer vantagem de potência.

Acesso e continuidade. Um tratamento que a pessoa consegue manter por dois anos entrega mais que um que ela abandona em três meses.

Um caso, de-identificado

A situação. Paciente adulto chegou em uso de incretínico iniciado em outro serviço, sem indicação clínica que eu reconhecesse no caso, com caixas já compradas e o desejo declarado de continuar.

O raciocínio. Manter o tratamento sem indicação não era conduta. Mandar parar de uma vez e descartar o que já havia sido comprado produziria abandono da consulta, não melhora. A conduta foi terminar as doses já adquiridas com intervalo alargado, usando essas semanas como transição enquanto o plano alimentar e de treino era estruturado.

O que eu aprendi. Desprescrever tem técnica própria. Quando a indicação não existe, a saída que funciona costuma ser a que respeita o que a pessoa já investiu e usa esse intervalo como ponte, em vez de transformar a consulta em um confronto que ela vence saindo pela porta.

O porém

Quatro ressalvas.

Nenhum dos grandes ensaios de obesidade comparou semaglutida e tirzepatida cabeça a cabeça com desfecho duro. A comparação de perda de peso entre elas vem de estudos separados e de coortes pareadas, que carregam confusão residual.

O TRIUMPH-1 da retatrutida foi divulgado por comunicado à imprensa no momento em que este texto foi escrito. Comunicado não é publicação revisada por pares, e o número pode mudar.

Todos esses percentuais são médias. A distribuição individual é ampla, e a diretriz coreana oferece uma régua prática para lidar com isso: se não houver pelo menos 5% de perda em 3 meses na dose de manutenção, a recomendação é trocar ou parar o fármaco [17].

Nada disso substitui indicação. A conversa sobre qual molécula só faz sentido depois da conversa sobre se existe indicação, tema de quem tem indicação.

Perguntas frequentes

Qual emagrece mais, semaglutida ou tirzepatida?
Nos dados disponíveis, a tirzepatida entrega mais perda de peso. No mundo real com mais de 20 mil pacientes pareados, foram 14,7% contra 10,8% em dois anos. A comparação vem de coortes e de ensaios separados, e não de ensaio randomizado cabeça a cabeça.

A tirzepatida protege mais o coração por emagrecer mais?
No SURPASS-CVOT, em diabéticos com doença aterosclerótica, a tirzepatida foi não inferior e não superior à dulaglutida no desfecho cardiovascular, apesar de emagrecer aproximadamente o dobro. Mais perda de peso não se traduziu em mais proteção nesse ensaio.

Qual a diferença entre semaglutida e tirzepatida?
A semaglutida é agonista do receptor de GLP-1. A tirzepatida é agonista duplo, de GLP-1 e de GIP. A retatrutida, mais nova, é agonista de três receptores. Em geral, mais alvos têm entregado mais perda de peso, com mais efeito adverso.

Quanto tempo até saber se o remédio está funcionando?
A diretriz coreana usa uma régua prática: sem pelo menos 5% de perda em 3 meses na dose de manutenção, trocar ou parar o fármaco. A avaliação também precisa considerar o alvo definido pela complicação que se está tratando.

Existe remédio para obesidade em comprimido?
O orforglipron é um agonista de GLP-1 oral em desenvolvimento. Em meta-análise no diabetes tipo 2 ele perdeu até 7,80% do peso contra placebo, com corpo de evidência de três ensaios e certeza baixa pelo GRADE.

Leitura relacionada

Referências

  1. Wilding JPH, Batterham RL, Calanna S, et al. Once-Weekly Semaglutide in Adults with Overweight or Obesity (STEP 1). N Engl J Med. 2021;384:989-1002. DOI: 10.1056/NEJMoa2032183
  2. Wharton S, Freitas P, Hjelmesaeth J, et al. Semaglutide 7,2 mg (STEP UP). ADA 85th Scientific Sessions, 2025. NCT05646706.
  3. Jastreboff AM, et al. Tirzepatide Once Weekly for the Treatment of Obesity (SURMOUNT-1). N Engl J Med. 2022. DOI: 10.1056/NEJMoa2206038
  4. Garvey WT, Blüher M, et al. Coadministered Cagrilintide and Semaglutide in Adults with Overweight or Obesity (REDEFINE 1). N Engl J Med. 2025. DOI: 10.1056/NEJMoa2502081
  5. Davies MJ, Bajaj HS, et al. Cagrilintide-Semaglutide in Adults with Overweight or Obesity and Type 2 Diabetes (REDEFINE 2). N Engl J Med. 2025. DOI: 10.1056/NEJMoa2502082
  6. Eli Lilly and Company. Retatrutide Phase 3 obesity trial (TRIUMPH-1), NCT05929066. Comunicado à imprensa, 21 de maio de 2026.
  7. Retatrutide in early type 2 diabetes (TRANSCEND). Lancet. 2026. DOI: 10.1016/S0140-6736(26)00967-0
  8. Venkatakrishnan AJ, Murugadoss K, Soundararajan V. Weight-loss dynamics with tirzepatide versus semaglutide. PNAS Nexus. 2026. DOI: 10.1093/pnasnexus/pgag171
  9. Idrees Z, Cancarevic I, Huang L. FDA-Approved Pharmacotherapy for Weight Loss Over the Last Decade. Cureus. 2022;14(9):e29262. DOI: 10.7759/cureus.29262
  10. Nicholls SJ, Pavo I, Bhatt DL, et al. Tirzepatide versus dulaglutide in type 2 diabetes with atherosclerotic disease (SURPASS-CVOT). N Engl J Med. 2025. DOI: 10.1056/NEJMoa2505928
  11. Gastaldelli A, Cusi K, Fernández Landó L, et al. Effect of tirzepatide versus insulin degludec on liver fat content (SURPASS-3 MRI). Lancet Diabetes Endocrinol. 2022. DOI: 10.1016/S2213-8587(22)00070-5
  12. Ravussin E, et al. Tirzepatide and metabolic adaptation. Cell Metab. 2025. DOI: 10.1016/j.cmet.2025.03.011
  13. Tirzepatide effects on energy intake, appetite and food craving. Nat Med. 2025. DOI: 10.1038/s41591-025-03774-9
  14. Wolfe MM, Boylan MO, Chin WW. Glucose-Dependent Insulinotropic Polypeptide in Incretin Physiology. Endocr Rev. 2025;46:bnaf006. DOI: 10.1210/endrev/bnaf006
  15. Hidalgo Ramos RA, Hong I, Ortiz M, et al. Effects of tirzepatide on skeletal muscle mass in adults: a systematic review. Cureus. 2025;17(7):e89020. DOI: 10.7759/cureus.89020
  16. Nong K, et al. Comparative efficacy and safety of anti-obesity medications: network meta-analysis. BMJ. 2026. DOI: 10.1136/bmj-2026-372161
  17. Kim KK, Haam JH, Kim BT, et al. Clinical Practice Guidelines for Obesity, Korean Society for the Study of Obesity, 2022 Update. J Obes Metab Syndr. 2023;32(1):1-24. DOI: 10.7570/jomes23016

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